Outubro 25 2009

 

 

 

 

A opinião pública fervilha novamente com mais uma publicação de um livro de Saramago designado “Caim”. Desde que sou nascido, desde que se anunciaram 22 invernos sob 22 primaveras nesse magistral relógio que é o tempo, nunca me apercebi que um livro publicado fosse notícia de abertura dos jornais televisivos e foco de grande destaque e plano de primeira página nos jornais diários e semanários. Algo que Saramago não estivesse habituado, algo que ele não experimentasse outrora. Refiro-me, portanto, á publicação do Evangelho Segundo Jesus Cristo no inicio dos anos 90, cuja publicação foi interdita pelo então Ministro da Cultura Sousa Lara sob a alçada do Cavaquismo. É claro que a minha tenra idade na altura desta censura era facto condicionante de eu não tomar conhecimento deste facto, pelo menos no que concerne ao seu entendimento efectivo. Mas, contudo, esta questão foi felizmente retomada mais tarde, pelas piores razões é claro, depois do Portugal democrático que Abril nos trouxe, mas sendo facto determinante para que nunca se volte a fazer censura explicita ao bom modo Salazarista no Portugal que se dizia e diz de “democrático”. Para pena minha e de alguns concidadãos, a censura permanece em Portugal, agora sob a forma camuflada, sob a forma do aparecimento nas primeiras páginas dos jornais como se de um acontecimento estrondoso acontecesse, nas primeiras notícias dos noticiários televisivos como se de um acidente frontal entre dois veículos de tratasse – um da linha conservadora da sociedade portuguesa e outro da linha progressista da mesma sociedade.

Vi-me, devido a isto obrigado a comprar o livro e lê-lo. Não porque o meu gosto por Saramago se têm vindo a agudizar ao longo dos tempos mas fundamentalmente porque não queria ser mais um daqueles ignorantes que por vezes ouço nos cafés a comentarem os livros dos quais nunca tinham lido e nem sabiam muito bem do que falavam, apenas lançavam o assunto para criarem uma atmosfera de snobismo em seu redor derivado do facto de ao seu lado ou nas proximidades estarem as mais singelas mulheres a assistir a todo aquele desfile de ideias ocas.

A primeira consideração que gostava de fazer é que não considero Saramago enquanto um ateu. Quem leu o livro (e é para estes que tenciono que este texto seja lido efectivamente) verifica que Saramago materializa muito bem um Deus, negativo porém, mas um Deus. Chama-lhe covarde, egoísta, de quem não se pode fiar. Ora, como poderá alguém, no seu perfeito juízo como está Saramago e que a linguagem e a escrita deste livro denunciam e evidenciam, caracterizar um Deus dizendo à posteriori que ele não existe? Não será a sua caracterização (negativa) uma forma de lhe materializar a existência? Esta minha reflexão deve encerrar-se também na obra de Miguel Torga e do seu conhecido ateísmo. Torga num dos seus poemas em que debate a presença de Deus refere: “Não tenho mais palavras, gastei-as a negar-Te”. Ora, este “Te” final materializa uma existência a um Deus que o autor repugna e não quer acreditar. Antes de ateísmo de Torga e Saramago, eu prefiro dizer que ambos estão revoltados com Deus. Saramago devido a observador atento da realidade mundial e da destruição do Homem pelo Homem e Torga pela sua experiencia médica que lhe mostrava o sofrimento humano em todo o seu auge e que o fazia interrogar-se acerca da existência de Deus perante todo aquele sofrimento.

Voltando ao livro de Saramago – Caim – o autor decide relatar um acontecimento de injustiça divina, ou seja, por obra não sei das quantas e desconhecendo-se os critérios que Deus utilizou para chegar a tais conclusões, o que aconteceu foi que Deus aceitou o sacrifício de um carneiro de Abel (irmão de Caim) e não aceitou o sacrifício da palha queimada de Caim. Posto isto, Caim matou o irmão e foi recriminado durante toda a sua vida. Mas na antecedência do fratricídio de Caim esteve uma acção pouco justa de Deus que se julga tão amigo dos seus filhos e que, na verdade, acabava por manifestar um acto de selecção, aceitando Abel e rejeitando Caim, também seu filho.

O episódio de Adão e Eva trouxe-me com este livro de Saramago novas objecções: primeiro, Deus ao anunciar a árvore proibida do jardim do éden aos seus filhos – Adão e Eva – a tal árvore apetecida e do Bem e do Mal estava a incutir nestes o desejo, a volúpia, o prazer. Posto isto, Deus se fizesse muita questão em que não comessem daquela árvore poderia não ter dito nada a Adão e a Eva; ou melhor ainda, como refere Saramago, se Deus é tão omnipotente e se fizesse tanta questão em proteger a tal arvore do Bem e do Mal porque é que ele não a colocou noutro sitio não visível aos olhos humanos ou não a vedava com uma cerca de arame farpado para ninguém lhe chegar. Mas outro episódio semelhante a este de desconfiança de Deus relativamente aos seus fies foi o caso de Abraão que, por sinal de fidelidade ao senhor, se viu obrigado a matar o filho. Sorte dos “diabos” que apareceu um anjo (ou Caim) e lhe impediu de ele fazer aquela loucura. Que Deus é este, tão inseguro de si, que põem à prova os seus crentes? Pensava que isso dos testes de fidelidade estava encerrado aos casais daqui da vida mundana e do comum dos mortais mas afinal eles também são instrumento das forças divinas…

Voltando a Adão e Eva, também me parece que o facto de Eva tentar convencer Adão da existência da árvore do “Pecado” (recuso-me a tirar as aspas) tem uma importância extrema, visto que, desde o inicio, desde os tempos em que o Mundo e o seu surgimento era relatados por metáforas, que a mulher incutia no homem todos os pecados e todas as maleficências. Isto começava mal. Estava imediatamente criada a brecha socializadora entre os sexos, algo que o tempo trataria de clivar e acentuar cada vez mais ao ponto de se assistirem a injustiças e desigualdades gritantes entre homens e mulheres, facto tão evidente e presente nos nossos tempos. Posto isto, concluo que a mensagem do velho testamento iniciara-se, como dizer isto sem ofender as mentalidades católicas, um pouco tortinha e mal endireitada…

Depois a mensagem supostamente unificadora de Deus perece-me um pouco opressiva, assente em ideias pouco vagas e imprecisas acerca do que constitui o Bem e o Mal, o que se pode fazer e não se pode, o que está de acordo com a lei de Deus e aquilo que não está. Nas palavras de Saramago (e pelos vistos nos relatos bíblicos) Josué foi um guerrilheiro exímio na construção da Lei de Deus na terra, isto é, apoderar-se ou até, por vezes, destruir através de uma força cobarde e devastadora as populações (veja-se, por exemplo, o caso de cosmorra e sodoma).

Também o caso de Job é paradigmático das apostas caprichosas de Deus com o Diabo. Como poderá um homem como Job, pelos vistos honesto e muito religioso, ser submetido a tamanha atrocidade devido a apostas entre o supremo das forças do Bem e o supremo das forças do Mal? E como Deus resolve o problema quando for evidenciada a fé e a “paciência de Jò”, celebre expressão que acabou por passar gerações e gerações até aos dias de hoje? Vai retribuir tudo o que Jó tinha, o rebanho, os seus homens de trabalho, os filhos… Como se o amor pelos filhos ou até mesmo pelas coisas materiais que lhe pertenciam seguissem cegamente as encruzilhadas e as mesmas leis que a ciência da Álgebra, um que se retira, um que se repõem, filhos que morrem, filhos que se repõem. Penso que no que concerne aos sentimentos e às necessidades afectivas do Homem (esse que supostamente Deus criou), o senhor não estava muito bem informado sobre os circuitos que desde então se processavam, e ainda processam, nos penhascos do seu sistema límbico do nosso cérebro.

Convêm também a este título falar sobre a tendência bipolarizadora da questão do Bem e do Mal, como se a realidade fosse dicotómica, do tipo ausente ou presente, ou se acredita em Deus ou no Diabo, ou se tem fé ou não se tem, ou se gosta ou não se gosta. Mas na verdade, a realidade é mais continua do que aquilo que se julga e essa dicotomia deve ser encarada como uma necessidade do Homem, sempre desamparado e desprotegido relativamente ao Mundo e a si próprio, uma espécie de engendro que as mentes humanas laboriosamente construíram para se abrigarem das aflições do Mundo e da existência.

Gostava de terminar esta minha reflexão (teológica… não sei; pelo menos tentei criar as minhas artimanhas para apurar e refinar o meu pensamento crítico) citando uma frase de Saramago que, a dado momento no Caim refere: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.

 

 

publicado por Simao_psi às 16:40

Agosto 21 2009

 

 

Escrever para mim é isto. É tentar ter a cabeça e o coração sempre ligados, numa espécie de comunicação da alma com o corpo. Escrever é dizer e fazer o que nos apetece e depois termos que confessar ao papel os nossos actos. Escrever é dos actos mais naturais e também mais hostis que eu conheço. Escrever comporta hostilidade porque existe um tanto de sofrimento quando se escreve, uma frase que é dita e que nos é dolorosa, uma palavra que nos desperta o enxame que tínhamos guardado religiosamente nas profundezas do nosso Ser. Depois de escrevermos o Mundo não fica o mesmo: primeiro sou eu que me modifico porque não sou eu mesmo… Quando Escrevo. Um livro, uma frase, uma palavra têm a magnífica capacidade de mudar o Mundo através da mudança de ideias.

 Escrever traz consigo, também, algo de companheirismo de modo que parece que temos que “prestar contas” com um Ser que se desconhece mas que nos controla à distância. Sendo assim, escrever é portanto um acto de escravidão: é uma questão de termos nascido para Escrever ou não, quase uma coisa de invalidez pelo nascimento e depois pronto durante toda a vida saem umas coisas às quais convencionalmente chamamos como “Escrita”, umas coisas que estupidamente e todos vaidosos mostramos aos amigos e eles dizem que não tem fundamento nenhum. Escrever é aquilo que faço agora a uma velocidade estrondosa e alucinante cujo bater das teclas me embala ao longo do teclado e sinto o coração irado e com vontade de estoirar! Escrever é dizer que sou capaz de mudar o Mundo porque quando se escrever, o Sonho materializa-se! Sou escritor e nunca escrevi nenhum livro. Sou escritor e sempre vivi neste meu recanto, com 22 anos feitos, um curso para terminar e com um trabalho que sempre me dá para ir comprando timidamente uns livros, acto que me incita a tentar esboçar alguns tiques de intelectual. Mas, ainda assim, tenho a ilusão mais infantil de me considerar como escritor, convencido que estou de que cada um de nós transporta consigo um ente semi-escondido de Escritor. E Escrever, meus caros, está muito longe de escrever livros ou de ser autor de um best-seller: os grandes escritores são antes de tudo aqueles que sempre foram fiéis aos momentos mais íntimos de partilha dos seus sentimentos entre duas pessoas: o Próprio e esse Ser que se desconhece mas que nos controla à distância.

publicado por Simao_psi às 23:11

Agosto 07 2009

 

 
 
 Vocês podem nem conhecer o sabor deste Vento quente que entra pela janela do meu quarto enquanto escrevo isto, nem tampouco o cheiro da rua que me inunda as narinas e me penetra na traqueia. Talvez vocês (aí desse lado que insistem em ler este texto) não sintam nada do que estou a sentir neste momento e eu sempre achei que quando escrevo a minha missão seria sempre traduzir a realidade, tal como ela se me apresenta, aos meus “leitores” (não coloquei as aspas por qualquer falta de respeito a quem lê isto mas antes pelas reservas mais profundas em considerar-me enquanto “escritor”, nesse sentido eterno e corriqueiro do termo). No entanto, este Sol adormecido e tórrido que anuncia o cair da tarde e o início da penumbra quer-me revelar algo que ainda desconheço. É então que estou aqui sentado, como se não tivesse nada para dizer (terei de facto algo a dizer?), a ouvir o teclado do meu computador a estalar de tal modo intenso que acabo por perder o sentido e o norte de mim e me deixo levar ao sabor do barulho das teclas, quentes, húmidas e harmónicas.
Eu gosto deste pôr-do-sol na minha rua, porque as coisas mundanas ganham uma outra cor ao final da tarde. O recolher das pessoas vindas do trabalho (desisto do termo “emprego”), a azáfama provocada por elas, o cheiro de alegria que transportam em virem para casa visto que se avista cada vez mais de perto um fim-de-semana tão auspiciado. Os fins-de-semana aqui na minha rua são sempre iguais: as pessoas como se deitam tarde na noite de sexta (ouvem-se barulhos surdos por toda a parte da rua que ecoam e que sobem num manto até à janela do meu quarto) acabam por se levantar tarde no dia a seguir. Lá pelo meio-dia ouve-se um tilintar de louças e tachos anunciando um almoço gordo e farto, com grandes pedaços de carne ou eventualmente um bom peixe. O sabor da comida começa por evadir as narinas dos mais sensíveis e a fazer-nos sentir a saliva a aumentar na nossa boca já faminta de tanto cheiro penetrante.
O grande mal de muita gente que por aí deambula é desconhecer por completo o local onde vivem, os seus cafés, as ruas, as casas perto das suas, os seus vizinhos. Muita gente viajante por esse Mundo que pensa que conhecesse esse Portugal aquém e além fronteiras têm a eterna ilusão de que conhece tudo. Muitas vezes desconhece a alegria que existe mesmo ao lado da sua porta, na sua rua, no seu bairro, na sua avenida. Porque existe sempre (quer nós queiramos quer não) uma parte de nós que se circunscreve aos lugares onde habitamos e que permanecem eternos nesses lugares mesmo depois de morrermos. Assim, estou certo que nesta minha rua que observo daqui à distância da minha janela, haverá sempre, daqui a uns largos anos espero, um Simão a deambular pelo café do Sr. Pereira, pela Mercearia do Sr. Trocato ou até pelo café Viena. Esses lugares, por onde passei e me mantive fiel irão perpetuar a minha presença sempre constante independentemente da minha presença física ou na ausência dela. Existirão sempre nos rumores e nas conversas de café (sempre achei as conversas de café de uma sapiência indescritível e imensurável) um anúncio ao Simão, ainda que mau ou bom, ainda que na tentativa de me matar mais ou no sentido de me dar mais vida. Ao contrário de outros que muito viajantes, sempre desconheceram por completo o lugar onde habitavam. Quando morrerem, chega a vez dos lugares da zona se esquecerem dos habitantes ausentes, os menosprezarem e ignorarem e é então que permanecerão eternamente mortos quer para eles quer para os lugares aos quais falsamente pertenciam.
publicado por Simao_psi às 20:13

Agosto 02 2009

 

          Queria deixar um post neste meu blog sobre um texto que li um destes dias no Diário   de Notícias sobre Álvaro Cunhal escrito pelo nosso grande Saramago. Aqui vai:

 

 

"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sínónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantdo e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional, quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razõess com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que un dia Graham Green disse a Eduardo Lourenço: “O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal”. O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

 

"
                                                                                                   José Saramago in Diário de Notícias.

 

 

 

 

publicado por Simao_psi às 11:24

Fevereiro 24 2009

O texto que se segue foi escrito nos recantos da intimidade de uma mulher de 49 anos que sempre trabalhou a vida inteira e sempre soube o sabor amargo da vida laboral. É um texto que agora publico aqui, no meu blog, porque par'além de me identificar com ele, está também muito simples e bem tradutor de todas as injustiças. Adoro-te mãe.

 

"

É o que ouvimos hoje por todo o lado. Desde bem nova que também ouvia falar:
 
-“Isto é que vai uma crise!”
 
Agora é diferente. Acho que ela chegou em força. O Mundo rendeu-se a essa doença contragiosa que mina tudo e todos… quero dizer… quase todos!
A confusão começa a instalar-se com os desempregos! Atrás disso arrasta-se o que há de pior. A falta desse bem odioso, necessário, poderoso e destrutivo! O dinheiro!
As pessoas limitam-se ás ajudas possíveis, governamentais algumas… e caridadezinhas que começam a surgir por todo o lado. E o povo obriga-se a tudo isto porque a necessidade assim se impõem. Mas sofrem! Sofrem na Alma! A mágoa de ter que recorrer a tudo isto e ver que há sempre quem consiga viver aparte de tudo o que se está a passar! Continuam a conduzir os seus “topos de gama” e a comer nos restaurantes mais caros; a educar os filhos nos melhores colégios e escolas. Depois, claro, de terem fechado os portões das fábricas e darem tudo como falido. É A CRISE! Arremessos de políticas que os Homens não são capazes de dominar porque dominados estão já eles próprios por completo. Enlouquecidos pelo autoritarismo e pelo poder, geram finalmenteaquilo a que chamam de “recessão económica”. É sem duvida uma frase bem mais agradável do que dizer: “Chegou a Miséria”. E pedem dos altos palanques:
 
- “Aguentem aí, vamos tentar melhorar isto. Temos planos para resolver este problema, só pedimos mais um pequeno esforço.”
 
Que esforço amigos? Fartos e cansados de esforço estamos nós ao longo de toda a vida e vem agora estes “badamerdas” com uma lata dos diabos pedir ao povo mais esforço. Não perdi a fé nem a esperança de que um dia o povo seja realmente “quem mais ordena” e mande quem agora os manda… “fazer mais um pequeno esforço”.
publicado por Simao_psi às 15:53

Fevereiro 06 2009

 

 

 

Escrever para mim é isto. É tentar ter a cabeça e o coração sempre ligados, numa espécie de comunicação da alma com o corpo. Escrever é dizer e fazer o que nos apetece e depois termos que confessar ao papel os nossos actos. Escrever é dos actos mais naturais e também mais hostis que eu conheço. Escrever comporta hostilidade porque existe um tanto de sofrimento quando se escreve, uma frase que é dita e que nos é dolorosa, uma palavra que nos desperta o enxame que tínhamos guardado religiosamente nas profundezas do nosso Ser. Depois de escrevermos o Mundo não fica o mesmo: primeiro sou eu que me modifico porque não sou eu mesmo… Quando Escrevo. Um livro, uma frase, uma palavra têm a magnífica capacidade de mudar o Mundo através da mudança de ideias.

 Escrever traz consigo, também, algo de companheirismo de modo que parece que temos que “prestar contas” com um Ser que se desconhecesse mas que nos controla à distância. Sendo assim, escrever é portanto um acto de escravidão: é uma questão de termos nascido para Escrever ou não, quase uma coisa de invalidez pelo nascimento e depois pronto durante toda a vida saem umas coisas às quais convencionalmente chamamos como “Escrita”, umas coisas que estupidamente e todos vaidosos mostramos aos amigos e eles dizem que não tem fundamento nenhum. Escrever é aquilo que faço agora a uma velocidade estrondosa e alucinante cujo bater das teclas me embala ao longo do teclado e sinto o coração irado e com vontade de estoirar! Escrever é dizer que sou capaz de mudar o Mundo porque quando se escrever, o Sonho materializa-se! Sou escritor e nunca escrevi nenhum livro. Sou escritor e sempre vivi neste meu recanto, com 22 anos feitos, um curso para terminar e com um trabalho que sempre me dá para ir comprando timidamente uns livros, acto que me incita a tentar esboçar alguns tiques de intelectual. Mas, ainda assim, tenho a ilusão mais infantil de me considerar como escritor, convencido que estou de que cada um de nós transporta consigo um ente semi-escondido de Escritor. E Escrever, meus caros, está muito longe de escrever livros ou de ser autor de um best-seller: os grandes escritores são antes de tudo aqueles que sempre foram fiéis aos momentos mais íntimos de partilha dos seus sentimentos entre duas pessoas: o Próprio e esse Ser que se desconhecesse mas que nos controla à distância…

 

publicado por Simao_psi às 20:07

Janeiro 13 2009

 

 

Porque este vídeo e esta música já devia constar no meu blog à mais tempo... Desfrutem ;)

publicado por Simao_psi às 18:30

Janeiro 02 2009

 

Quem me dera olhar para ti e odear-te

Quem me dera que nunca mais te ouvisse,

Te cheirasse, te sentisse

Um clamor que ficou na minha ausência

Não sei se paixão, se uma demência

Não sei se amor, se uma chatiçe.

 

Gostava de ser livre, de ter meu coração aberto

Caminhar com ele entre a multidão

Certo de que meu coração

Se desprendia

E com toda a alegria

Procurava entre o Mundo compaixão.

 

Compaixão entre as pessoas

Porque está cansado de viver

Não sabe se hà-de amar se odiar

Está desesperadamente desesperado

Permanece triste e malogrado

E está farto de sofrer.

publicado por Simao_psi às 20:33

Outubro 18 2008

 

 

 
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão alimesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea porsopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amorfechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não sepercebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso - Elogio ao Amor.
publicado por Simao_psi às 20:52

Setembro 23 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  Grande parte da sociedade Portuguesa pode ser comparada a três espécies animais: existem os Porcos, depois os Cães e as Ovelhas (ousando plagear o sentido do álbum "Animals" dos Pink Floyd de 1977). Centremo-nos no caso português.

  Em portugal os porcos resumem-se a belmiros de azevedos, amorins e outros suínos da sua estirpe. E o mais deprimente é que a comunicação social faz as "eleições para o porco do ano" pondo na praça pública notícias como "o Homem mais rico do país já não é belmiro de azevedo, cito: "Amorim passa Belmiro e já é o mais rico de Portugal" in JN dia 13 de agosto de 2008. Quando todos estão preocupados com as descidas do preço das gasolineiras (os donos delas são outros porcos), com o aumento dos transportes públicos e com o aumento do custo de vida e perda do poder de compra das famílias vêm os jornais com... os porcos!

Enfim, o segundo vector Floydiano são os Cães. De facto, Roger Waters e companhia representaram os políticos corruptos como Margaret Thatcher e Mary Whitehouse mas no caso português ele pode ser representado pelo imperador da madeira que dizem que é político, um que viu que o país não andava das pernas e decidiu dar de frosques e deixou a um pobre cão (Santana Lopes) a terrível incumbência da porcaria que ele próprio gerara. E temos que ter em atenção porque nos telejornais hà sempre um cão que ladra mais alto: o nosso primeiro ministro. Pois com ele é uma maravilha! Computadores Magalhães para todos os alunos! E como eu acho este nome tão maricas! Imaginem um puto que chega à escola e recebe uma pergunta da professora:

 

  - Então Joãozinho, trazes hoje o teu Magalhães?"

 

Eu se fosse um colega do Joãozinho dizia logo:

 

  - Ho Joãozinho, agora és gay?!!

 

Senhor primeiro ministro têm que se trabalhar para a classe média porque ela é a fatia mais representativa da população logo mais votos nas eleições, não é? É o choque tecnológico sem precedentes. Quando existem escolas em condições degradáveis e desumanas, com os violentos ataques aos direitos dos professores, o PitBull da matilha anuncia doações (jesus cristo afinal existe!) às criancinhas (compradas para fazer propaganda?).

Finalmente, Roger Waters anuncia as ovelhas. E o que não faltam são ovelhas neste país à beira mar plantado. É só pastagem onde ovelhas seguem o "pastor". Basta ver a "disciplina de voto" em certos e determinados partidos da assembleia da república para perceberem do que estou a falar. E o mais lamentável é que criticam certos e determinados partidos por serem demasiado "fechados" e com "autoritarismo interno". Quem têm telhados de vidro...

E é assim este Portugal surreal, esta quinta onde abundam diferentes espécies de animaizinhos. O que me levou a escrever isto foi ter ouvido à pouco tempo o álbum dos Pink Floyd supra-referido e reparar no quão actual ele é no nosso Mundo e, claro, no nosso tão bonito Portugal.

 

publicado por Simao_psi às 19:55

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