Agosto 07 2009

 

 
 
 Vocês podem nem conhecer o sabor deste Vento quente que entra pela janela do meu quarto enquanto escrevo isto, nem tampouco o cheiro da rua que me inunda as narinas e me penetra na traqueia. Talvez vocês (aí desse lado que insistem em ler este texto) não sintam nada do que estou a sentir neste momento e eu sempre achei que quando escrevo a minha missão seria sempre traduzir a realidade, tal como ela se me apresenta, aos meus “leitores” (não coloquei as aspas por qualquer falta de respeito a quem lê isto mas antes pelas reservas mais profundas em considerar-me enquanto “escritor”, nesse sentido eterno e corriqueiro do termo). No entanto, este Sol adormecido e tórrido que anuncia o cair da tarde e o início da penumbra quer-me revelar algo que ainda desconheço. É então que estou aqui sentado, como se não tivesse nada para dizer (terei de facto algo a dizer?), a ouvir o teclado do meu computador a estalar de tal modo intenso que acabo por perder o sentido e o norte de mim e me deixo levar ao sabor do barulho das teclas, quentes, húmidas e harmónicas.
Eu gosto deste pôr-do-sol na minha rua, porque as coisas mundanas ganham uma outra cor ao final da tarde. O recolher das pessoas vindas do trabalho (desisto do termo “emprego”), a azáfama provocada por elas, o cheiro de alegria que transportam em virem para casa visto que se avista cada vez mais de perto um fim-de-semana tão auspiciado. Os fins-de-semana aqui na minha rua são sempre iguais: as pessoas como se deitam tarde na noite de sexta (ouvem-se barulhos surdos por toda a parte da rua que ecoam e que sobem num manto até à janela do meu quarto) acabam por se levantar tarde no dia a seguir. Lá pelo meio-dia ouve-se um tilintar de louças e tachos anunciando um almoço gordo e farto, com grandes pedaços de carne ou eventualmente um bom peixe. O sabor da comida começa por evadir as narinas dos mais sensíveis e a fazer-nos sentir a saliva a aumentar na nossa boca já faminta de tanto cheiro penetrante.
O grande mal de muita gente que por aí deambula é desconhecer por completo o local onde vivem, os seus cafés, as ruas, as casas perto das suas, os seus vizinhos. Muita gente viajante por esse Mundo que pensa que conhecesse esse Portugal aquém e além fronteiras têm a eterna ilusão de que conhece tudo. Muitas vezes desconhece a alegria que existe mesmo ao lado da sua porta, na sua rua, no seu bairro, na sua avenida. Porque existe sempre (quer nós queiramos quer não) uma parte de nós que se circunscreve aos lugares onde habitamos e que permanecem eternos nesses lugares mesmo depois de morrermos. Assim, estou certo que nesta minha rua que observo daqui à distância da minha janela, haverá sempre, daqui a uns largos anos espero, um Simão a deambular pelo café do Sr. Pereira, pela Mercearia do Sr. Trocato ou até pelo café Viena. Esses lugares, por onde passei e me mantive fiel irão perpetuar a minha presença sempre constante independentemente da minha presença física ou na ausência dela. Existirão sempre nos rumores e nas conversas de café (sempre achei as conversas de café de uma sapiência indescritível e imensurável) um anúncio ao Simão, ainda que mau ou bom, ainda que na tentativa de me matar mais ou no sentido de me dar mais vida. Ao contrário de outros que muito viajantes, sempre desconheceram por completo o lugar onde habitavam. Quando morrerem, chega a vez dos lugares da zona se esquecerem dos habitantes ausentes, os menosprezarem e ignorarem e é então que permanecerão eternamente mortos quer para eles quer para os lugares aos quais falsamente pertenciam.
publicado por Simao_psi às 20:13

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