Outubro 25 2009

 

 

 

 

A opinião pública fervilha novamente com mais uma publicação de um livro de Saramago designado “Caim”. Desde que sou nascido, desde que se anunciaram 22 invernos sob 22 primaveras nesse magistral relógio que é o tempo, nunca me apercebi que um livro publicado fosse notícia de abertura dos jornais televisivos e foco de grande destaque e plano de primeira página nos jornais diários e semanários. Algo que Saramago não estivesse habituado, algo que ele não experimentasse outrora. Refiro-me, portanto, á publicação do Evangelho Segundo Jesus Cristo no inicio dos anos 90, cuja publicação foi interdita pelo então Ministro da Cultura Sousa Lara sob a alçada do Cavaquismo. É claro que a minha tenra idade na altura desta censura era facto condicionante de eu não tomar conhecimento deste facto, pelo menos no que concerne ao seu entendimento efectivo. Mas, contudo, esta questão foi felizmente retomada mais tarde, pelas piores razões é claro, depois do Portugal democrático que Abril nos trouxe, mas sendo facto determinante para que nunca se volte a fazer censura explicita ao bom modo Salazarista no Portugal que se dizia e diz de “democrático”. Para pena minha e de alguns concidadãos, a censura permanece em Portugal, agora sob a forma camuflada, sob a forma do aparecimento nas primeiras páginas dos jornais como se de um acontecimento estrondoso acontecesse, nas primeiras notícias dos noticiários televisivos como se de um acidente frontal entre dois veículos de tratasse – um da linha conservadora da sociedade portuguesa e outro da linha progressista da mesma sociedade.

Vi-me, devido a isto obrigado a comprar o livro e lê-lo. Não porque o meu gosto por Saramago se têm vindo a agudizar ao longo dos tempos mas fundamentalmente porque não queria ser mais um daqueles ignorantes que por vezes ouço nos cafés a comentarem os livros dos quais nunca tinham lido e nem sabiam muito bem do que falavam, apenas lançavam o assunto para criarem uma atmosfera de snobismo em seu redor derivado do facto de ao seu lado ou nas proximidades estarem as mais singelas mulheres a assistir a todo aquele desfile de ideias ocas.

A primeira consideração que gostava de fazer é que não considero Saramago enquanto um ateu. Quem leu o livro (e é para estes que tenciono que este texto seja lido efectivamente) verifica que Saramago materializa muito bem um Deus, negativo porém, mas um Deus. Chama-lhe covarde, egoísta, de quem não se pode fiar. Ora, como poderá alguém, no seu perfeito juízo como está Saramago e que a linguagem e a escrita deste livro denunciam e evidenciam, caracterizar um Deus dizendo à posteriori que ele não existe? Não será a sua caracterização (negativa) uma forma de lhe materializar a existência? Esta minha reflexão deve encerrar-se também na obra de Miguel Torga e do seu conhecido ateísmo. Torga num dos seus poemas em que debate a presença de Deus refere: “Não tenho mais palavras, gastei-as a negar-Te”. Ora, este “Te” final materializa uma existência a um Deus que o autor repugna e não quer acreditar. Antes de ateísmo de Torga e Saramago, eu prefiro dizer que ambos estão revoltados com Deus. Saramago devido a observador atento da realidade mundial e da destruição do Homem pelo Homem e Torga pela sua experiencia médica que lhe mostrava o sofrimento humano em todo o seu auge e que o fazia interrogar-se acerca da existência de Deus perante todo aquele sofrimento.

Voltando ao livro de Saramago – Caim – o autor decide relatar um acontecimento de injustiça divina, ou seja, por obra não sei das quantas e desconhecendo-se os critérios que Deus utilizou para chegar a tais conclusões, o que aconteceu foi que Deus aceitou o sacrifício de um carneiro de Abel (irmão de Caim) e não aceitou o sacrifício da palha queimada de Caim. Posto isto, Caim matou o irmão e foi recriminado durante toda a sua vida. Mas na antecedência do fratricídio de Caim esteve uma acção pouco justa de Deus que se julga tão amigo dos seus filhos e que, na verdade, acabava por manifestar um acto de selecção, aceitando Abel e rejeitando Caim, também seu filho.

O episódio de Adão e Eva trouxe-me com este livro de Saramago novas objecções: primeiro, Deus ao anunciar a árvore proibida do jardim do éden aos seus filhos – Adão e Eva – a tal árvore apetecida e do Bem e do Mal estava a incutir nestes o desejo, a volúpia, o prazer. Posto isto, Deus se fizesse muita questão em que não comessem daquela árvore poderia não ter dito nada a Adão e a Eva; ou melhor ainda, como refere Saramago, se Deus é tão omnipotente e se fizesse tanta questão em proteger a tal arvore do Bem e do Mal porque é que ele não a colocou noutro sitio não visível aos olhos humanos ou não a vedava com uma cerca de arame farpado para ninguém lhe chegar. Mas outro episódio semelhante a este de desconfiança de Deus relativamente aos seus fies foi o caso de Abraão que, por sinal de fidelidade ao senhor, se viu obrigado a matar o filho. Sorte dos “diabos” que apareceu um anjo (ou Caim) e lhe impediu de ele fazer aquela loucura. Que Deus é este, tão inseguro de si, que põem à prova os seus crentes? Pensava que isso dos testes de fidelidade estava encerrado aos casais daqui da vida mundana e do comum dos mortais mas afinal eles também são instrumento das forças divinas…

Voltando a Adão e Eva, também me parece que o facto de Eva tentar convencer Adão da existência da árvore do “Pecado” (recuso-me a tirar as aspas) tem uma importância extrema, visto que, desde o inicio, desde os tempos em que o Mundo e o seu surgimento era relatados por metáforas, que a mulher incutia no homem todos os pecados e todas as maleficências. Isto começava mal. Estava imediatamente criada a brecha socializadora entre os sexos, algo que o tempo trataria de clivar e acentuar cada vez mais ao ponto de se assistirem a injustiças e desigualdades gritantes entre homens e mulheres, facto tão evidente e presente nos nossos tempos. Posto isto, concluo que a mensagem do velho testamento iniciara-se, como dizer isto sem ofender as mentalidades católicas, um pouco tortinha e mal endireitada…

Depois a mensagem supostamente unificadora de Deus perece-me um pouco opressiva, assente em ideias pouco vagas e imprecisas acerca do que constitui o Bem e o Mal, o que se pode fazer e não se pode, o que está de acordo com a lei de Deus e aquilo que não está. Nas palavras de Saramago (e pelos vistos nos relatos bíblicos) Josué foi um guerrilheiro exímio na construção da Lei de Deus na terra, isto é, apoderar-se ou até, por vezes, destruir através de uma força cobarde e devastadora as populações (veja-se, por exemplo, o caso de cosmorra e sodoma).

Também o caso de Job é paradigmático das apostas caprichosas de Deus com o Diabo. Como poderá um homem como Job, pelos vistos honesto e muito religioso, ser submetido a tamanha atrocidade devido a apostas entre o supremo das forças do Bem e o supremo das forças do Mal? E como Deus resolve o problema quando for evidenciada a fé e a “paciência de Jò”, celebre expressão que acabou por passar gerações e gerações até aos dias de hoje? Vai retribuir tudo o que Jó tinha, o rebanho, os seus homens de trabalho, os filhos… Como se o amor pelos filhos ou até mesmo pelas coisas materiais que lhe pertenciam seguissem cegamente as encruzilhadas e as mesmas leis que a ciência da Álgebra, um que se retira, um que se repõem, filhos que morrem, filhos que se repõem. Penso que no que concerne aos sentimentos e às necessidades afectivas do Homem (esse que supostamente Deus criou), o senhor não estava muito bem informado sobre os circuitos que desde então se processavam, e ainda processam, nos penhascos do seu sistema límbico do nosso cérebro.

Convêm também a este título falar sobre a tendência bipolarizadora da questão do Bem e do Mal, como se a realidade fosse dicotómica, do tipo ausente ou presente, ou se acredita em Deus ou no Diabo, ou se tem fé ou não se tem, ou se gosta ou não se gosta. Mas na verdade, a realidade é mais continua do que aquilo que se julga e essa dicotomia deve ser encarada como uma necessidade do Homem, sempre desamparado e desprotegido relativamente ao Mundo e a si próprio, uma espécie de engendro que as mentes humanas laboriosamente construíram para se abrigarem das aflições do Mundo e da existência.

Gostava de terminar esta minha reflexão (teológica… não sei; pelo menos tentei criar as minhas artimanhas para apurar e refinar o meu pensamento crítico) citando uma frase de Saramago que, a dado momento no Caim refere: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.

 

 

publicado por Simao_psi às 16:40

Assino em baixo!!
Este livro é muito bom para no por a pensar em muito coisa!!
E eu digo eu concordo com muita das ideias do livro e sinseramente não vejo polémica nenhuma neste livro, só la está dito muitas das verdades do mundo mas é pena que as pessoas não gostam de as ouvir, ou neste caso ler!!!

beijinhos
Sara a 7 de Novembro de 2009 às 19:10

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