Agosto 26 2007

    

 

 

 

 

     No outro dia estava a passar de autocarro no IPO e vi um carro funebre a entrar para o parque. No outro dia estava a passar de autocarro no IPO e vi um carro funebre a entrar para o parque e enquanto isso, eu no autocarro, o motorista no autocarro, as pessoas que via nos carros a andarem com o volante de um lado para o outro, aflitas, ansiosas porque iriam chegar tarde ao emprego, porque iriam ouvir um sermão do patrão (de certeza que ouviram)... enquanto um carro, não um carro qualquer, um carro funebre que entrava no parque do IPO.

     As folhas das árvores verdes (primavera, que alegria cá fora!), pessoas de carro, de autocarro, a pé, moviam-se, riam-se, choravam. Sim, chorar é uma virtude face a um morto. Chorar é estar triste, e estar triste é estar vivo. É existir e existir pressupõem também isso, e enquanto escrevo isto, certamente que aquele carro já levou o que tinha a levar para o sítio que a gente sabe (ou então não sabe, pouco importa isso...) - sem significância, ausente de significado - mas, no entanto, á coisas que se agarram a nós, não saem de nós.

     Tudo isto porque no outro dia estava a passar de autocarro no IPO e vi um carro funebre entrar no parque. Paralelamente, estavam alguns cá fora a olharem para o carro, outros nem repararam (aliás, que significado pode ter um carro funebre?).

     Só devo dizer que há coisas que nem a um papel confessamos. Há coisas que permanecem para sempre em nós e não nos largam. No outro dia estava passar de autocarro no IPO  e vi um carro funebre a entrar para o parque. Não é normal os familiares dos doentes terminais terem um carro funebre, pois não? Não é normal os médicos, os enfermeiros, os psicólgos terem carros funebres, pois não? Mas então, que diabo ia aquele carro lá fazer? Porque é que estou a gastar energias a escrever sobre uma coisa que me feriu tanto?

     Por favor digam-me que aquele carro que eu vi entrar no parque do IPO é o último modelo da Mercedes e que certamente um médico (os médicos ganham bem caramba!!) comprou um. Digam-me também que ele trabalha diariamente lá, para que quando eu passar lá novamente e vir de novo o carro no parque já saber que é o carro do Sr. Doutor que trabalha no hospital do Cancro. Só assim se justifica a sua constante presença no parque do IPO.

publicado por Simao_psi às 18:02

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