Setembro 14 2007

  

 

 

   Quando tinha os meus 6/7 anos e quando habitava na inocência da infância acreditava que aquilo que via nos livros infantis eram pura realidade. Lembro-me de um livro que se intitulava "Histórias da Floresta" e de uma imagem que naquela altura me fascinava e hoje ainda me fascina: era uma noite límpida onde se viam as Estrelas e a Lua, e os animaizinhos da floresta na tentativa de chegar á Lua construíram uma escada enorme. Aquilo fascinou-me. Mas ainda me fascinou mais o facto de perceber que o indivíduo autor daquela proeza de livro e imagem compreendeu na íntegra toda a inocência e ingenuidade das crianças.

    Depois, quando entrei na idade dos dois números, pelos 13/14 anos começei a aperceber-me de que a realidade não era tão colorida como nos mostravam os livros infantis. Levei a cabo, então, uma desesperada procura de arranjar algo que se adequasse á realidade. Na verdade, apercebi-me que não é com escadas enormes que o Homem vai á Lua. Queria perceber o que se escondia atrás da minha inocência. Comecei a ler Eça de Queirós, José Saramago, Jorge Amado... por aí. Lembro-me da minha mãe, um dia, apanhar-me a ler um livro do Saramago que se intulava "Memorial do Convento". Ficou estupefacta. Na verdade, eu como estava deliciado com a leitura nem dei pela presença dela, até que de repente ela para mim:

 

   - Isto não é para a tua idade!

 

   (Ao mesmo tempo que me tirava o livro das mãos...)

 

    Por momentos, e pelo ridículo da situação, pensei que estava a ver alguma revista pornográfica ou coisa do género... mas por um lado pensava e era impossível ser uma revista deste tipo... eu não era demasiado ingénuo a esse ponto e sabia perfeitamente que as revistas pornográficas que tinha estavam guardadas num lugar completamente inacessível á minha mãe.

    O que a minha mãe tinha medo era que eu pudesse, eventualmente, ter más influências literárias e desgraça-se a minha vidinha com isso (as mães são sempre tão exageradas...). Pois bem, tive que "meter mãos á obra". Estava consciente que se quisesse ler literaturas mais obsecnas e menos normativas tinha que me esconder nas bibliotecas, no quarto de banho fingindo uma prisão de ventre que nunca mais passava. E assim foi. Ironia do destino ou não, nas bibliotecas que frequentei não encontrei os livros obcenos que tanto desejava. Encontrei livros como a minha mãe gostava que eu lesse: "As Índias Negras" de Júlio Verne ou as "Viagens ao Centro da Terra"; Livros de medicina, de História (a maior parte deles adulterando os factos históricos todos...), etc. Enfim, coisas que não me cativavam definitivamente.

      Nos meus 16/17 anos descobri uma crónica excelente na revista Visão que se intitulava "Ninguém é mais pobre do que os mortos" de António Lobo Antunes. Posteriormente comecei a pesquisar mais sobre o escritor. E que grande escritor que eu acabava de descobrir. As lições de vida que aprendi com ele são já inumeráveis.

    Começaram a fazer sentido determinados romances. Comecei a desfolhar Rodrigo Guedes de Carvalho (apreciador de Lobo Antunes), Miguel Sousa Tavares, Mia Couto, etc.

    Hoje com 20 anos feitos, caminhando de vento em popa para os 21, sou um estudante de psicologia em que na faculdade nos "impíngem quilhamaços" de literatura científica a maior parte, com certeza, sem qualquer possibilidade de compreendermos na íntegra, o que é um Ser Humano. 

 

publicado por Simao_psi às 15:24

as maes tao sempre a zelar pelo nosso futuro! olha que a minha nao me deixa ver o "Você na TV" esse programa matinal que passa nas manhas da TVI. Ela diz que ainda sou muito novo para aquilo, segundo ela só quando me reformar poderei ver aquele programa! portanto entendo perfeitamente a posiçao da tua mae. Mas sinceramente José Saramago??? nao lembra a ninguem podias ter escolhido melhor!!!
e eu que so kero ver o "Voce na TV" !!!
anonimo das emoçoes a 14 de Setembro de 2007 às 17:23

Realmente os livros infantis são uma valente desilusão principalmente os livros para as raprigas q falam de principes e princesas e de finais felizes. finais esses q raramente acontecem e q dao a mts raparigas umas valentes desilusoes qd descobrem q a vida n é tao colorida cm se pinta nos livros. e por isso q eu n compro livros infantis desses. o meu irmao q tem 8 anos le os livros infantis de miguel sousa tavares e ana zanatti grandes livros. c instorias inventadas mas q nos dao a verdadeira noçao da realidade.
eu felizmente nunca tive de me esconder para ler sempre pode ler e ver tudo o q quiz.
bjs
sara a 14 de Setembro de 2007 às 19:59

Comentarei o último parágrafo...

Partilho a 100% a tua visão! Aquilo que nos impingem, por vezes com termos quase impensáveis de poderem existir, é de facto tudo menos um manual de compreensão do ser humano (talvez seja um manual de complicação do ser humano)... mas o mais importante é por nós próprios procurarmos as nossa referências, até porque é com a irreverência, o sair da linha, que conseguimos ser diferentes e perspectivar novos horizontes.

O maior erro é deixarmo-nos formatar pelo que nos impingem... eu tento sempre ir mais além e sei que tu também o fazes. Um dia, quando formos psicólogos por nossa conta podemos impingir o nosso ponto de vista ;)

Abraço
JPA a 16 de Setembro de 2007 às 12:43

Interessante sua postagem .
quando jovem gostava muito dos quadrinhos. Coisas tipo Chiclete com Banana, Niquel Náusea e companhia. Lia é claro estórias infantis antes disso. Minha relação com a música é que curiosamente me levou a leitura de livros adultos. Pessoas como Arnaldo Antunes e Jim Morrison é foram fundamentais nesse processo. Minha paixão pelo cinema nacional também foi fundamnental para isso. Ela me levou a ler grandes nomes como José Louzeiro , um mestre, até hoje em minha vida.
A literatura acadêmica nunca foi a minha preferida. Essa idolatria catedrática sempre me pareceu sem sentido. Quer conhecer a alma humana? Leia Bukowski .
Voltando aos livros infantis, costumo dizer que eles tem duas leituras. Uma enquanto somos crianças e outra na fase adulta. Releia estórias como o Pequeno Príncipe e Alice no País das Maravilhas. Sua experiência de vida dará outro tom aqueles inocentes personagens.
FABIO DA SILVA BARBOSA a 20 de Outubro de 2008 às 17:53

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