Outubro 13 2007

  

 

 

 

 

 

 

 

 

   Por entre as pequenas frinchas da persiana do meu quarto já morno e quente de um ambiente de sono e serenidade profunda que paira nele entram raios de sol de laranja destilada, uns raios mais destilados do que outros, uns mais fortes e intensos, não destilados, escuros mesmo, com conotações de marcadores de filtro com que pintava na escola primária. Os móveis clareiam ao de leve no lado em que batem esses raios, parte do quarto fica iluminado por essa cor pura e simples do sol, existe um anuncío de matina por parte dos pássaros que fazem questão de anunciar com cânticos o nascer do Sol, o seu senhor supremo.

    Quando era pequeno sonhava com uma cadeira privada (só minha) num rochedo que eu via quando ia pescar para o mar com o meu pai, nos tempos em que era uma criança e achava que tudo era possível. Sonhava com uma casa perto do mar, perto do mar, perto do mar. Ralava-me se grande ou pequena. Ralava-me se era confortável ou não. Apenas queria uma casinha perto do mar, com o mínimo para sobreviver. Pensava em acordar de manhã sempre antes do Sol, sempre antes dele para ter o privilégio de o ver nascer. Sonhava com o sol quente a bater-me na cara e aquecer-me aquando do seu nascimento, enquanto ouvia o som das ondas serenas e calmas, o barulho ao fundo das gaivotas anunciando o alvorecer e o aroma de uma suave brisa, o perfume pessoal do mar que se entranha em nós e não saí, autêntico vício de mar.

    O relógio anuncia 8:00 da manhã. Tenho que me levantar, deixar esta "curtição do momento" (acho que a vida é um conjunto de vivências de momentos, todos eles momentos, independentes entre si ou comunicantes entre si). Ao lavar a cara e ao fechar os olhos lembro-me dos momentos em que mergulhava no mar de espírito desenfreado, atrevido, sem medo. Memórias da água não na cara só, mas em todo o corpo. Um autêntico mergulho no mar da minha vida, no mar da minha existência, neste mar onde existem peixes dóceis e capazes de me olharem com alegria enquanto outros com olhar de mau, autêticos tubarões que perturbam a calmia do meu mar, do mar da minha vida, do mar da minha existência. E sargaço, muito sargaço nesse mar. Tento desatar um pedaço de sargaço que me impede de continuar o meu precurso por este mar sem fim, este mar em que só existo eu, não mais ninguém, este mar onde não me posso sentir sozinho nem acompanhado porque é só meu.

   De repente, uma espécie de insight , uma espécie de acordar de um sono profundo e olho para o espenho da casa de banho que está em frente a mim. Aprecio as feições do meu rosto e vejo que molhadas. Olho para o resto do corpo e vejo que seco. Prosigo a minha viagem pela casa, e aprecio o raio de sol que penetra por dentro da casa, percorre o corredor fazendo um fio. Atravesso-me nele. Sinto-me completamente feliz. Quando me deixo de atravessar, a mesma linha, a mesma exactidão de fio, o mesmo iténerário: em direcção á cozinha. E sigo esse raio com a convicção de quem segue uma pista para um tesouro, uma pista para uma autêntica minha de ouro, uma autêntica variedade de jóias e moedas que me enriquecerão. Quando chego ao final do trajecto chego á minha outra varanda, do lado das trazeiras. Não vejo nada de especial. As mesmas coisas com as suas características próprias, no mesmo sítio, as arestas das coisas as mesmas, os seus ângulos internos também, os ângulos que cada uma faz com as outras também é a mesma. A mesma galinha de caco perto da janela ligeiramente inclínada, o mesmo vaso, a mesma cadeira para eu desfrutar o Sol ou a Lua em noites límpidas de verão (com o céu estrelado e o barulho dos ralos anunciando um dia quente que nos espera). Enquanto isso olho ocasionalmente para o céu, para o lado do horizonte e vejo umas nuvens escuras, anunciando uma possivel chuvada dentro em breve, o recolher das pessoas para as suas casas ou para os seus trabalhos tal como os animais se recolhem na floresta para as suas tocas (iguaizinhos, o mesmo comportamento de irritação e destreza) e eu percebo perfeitamente que de repente um dia lindo em que o sol me bate na cara enquanto acordo e que faz questão de entrar pelas frinchas da persiana do meu quarto pode transformar-se num dia de chuva intensa, chuva que ao caír faz lembrar lágrimas de sangue que o coração verte em horas de sofrimento intenso. Percebo que a alegria e a tristeza têm limites muito permeáveis e que são mesmo comunicantes. Percebo que alegria pode ser uma forma particular de tristeza, subordinada a ela, escrava dela. Percebo que isto é uma autêntica lição de vida: que a alegria automaticamente se tranforma em tristeza e angústia e que curiosamente pode ser parte dessa alegria (um simples raio de sol que atravessa o corredor da minha casa) a anunciar a outra face da moeda, a outra face da alegria, a tristeza na sua forma mais pura e dura.

 

publicado por Simao_psi às 18:59

eh pah ja tas como sergio godinho! k andaste a fumar? tou a brincar...
a vida é feita disto, primeiro a alegria (ilusao, sonho, o futuro nao importa) mas depois vem a (nao posso dizer palavroes no teu blog pois nao? mas às vezes apetesse dizer uns kuantos a esta realidade) realidade na sua outra face! como alguem ja me disse: "É a vida!" é o tipo de frases que acentam em qualquer discurso! mas tu, eu e muitos outros nao keremos k a vida seja assim! sera que a realidade é imutavel? se é entao... tb kero uma casa isolada perto do mar!
daniel r. a 13 de Outubro de 2007 às 20:41

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