Novembro 03 2007

 

 

 

 

  Jamais esquecerei o momento em que quando eras miúda e andavas com a pasta ás costas, mãos nas algibeiras e saltitavas com as tuas amigas

  (Amigas que eu nunca conheci, nunca quis conhecer.. repúdio da minha condição de velho querendo parecer novo, quando de facto, na altura não era velho: 35 anos... velho era o pretexto para não me relacionar com o Mundo),

   e enquanto isso espreito pelo vidro do meu carro, sem descer o vidro lateral, para que não notes sequer (imagine-se o ridículo) da minha respiração (é claro que a respiração nunca notavas porque ela se dissolvia nos "ares" da atmosfera) e no entanto, fito-te como se nunca te tivesse conhecido (teria-te conhecido algum dia?), os teus olhos que não consigo decifrar a cor depois destes anos todos (serão da mesma côr depois deste tempo todo?), os teus olhos não olhos, pontos derivado á distância de que te fito, certo que pontos... pontos que parecem estrelas no enorme universo que é a tua existência, universo ao qual nunca fiz parte, nunca lutei o que devia (seria esse o único problema?) e quando pensei que devia lutar já era tarde demais (será que é sempre "tarde demais" para uma guerra?) e enquanto isso olho novamente para ti (sim, porque até agora estava a olhar mas não via, apenas olhava e via o passado contigo, eu contigo, e em mais nada) e reparo que no andar, as mesmas feições, as mesmas movimentações exactas e frias (o teu andar, depois destes anos todos, reconheço em traços gerais, o teu andar) , o cabelo o mesmo feitio que outrora (agora menos singelo e simples, mais ornamentado, encaracolado, sei lá).

   Não dás por mim. Aliás, como nunca deste pela minha presença nem pela minha ausência. Sou teu pai, mais nada. Prefiro agachar-me no banco do meu carro e espreitar de vez enquando para te ver (tendo sempre a certeza de que não me vês) e perceber que se não me ligas nenhum, não é pelo facto de não gostares de mim, mas sim pelo facto de que não me vias caramba, afinal de contas estou tão longe de ti (80 metros mais ou menos, com o carro estacionado num sítio proíbido) e isso conforta-me o espírito, conseguir observar-te sem a preocupação da tua indiferença, observar-te em ambiente "naturalista" como se aprende em psicologia, os comportamentos e as atitudes são espontâneas e naturais, não há preocupações na movimentação dos olhos, da cabeça, dos membros porque não está ali ninguém de facto (pelo menos é o que tu pensas; eu estou dentro do meu carro... tu nem me vês pelo simples facto de que quando te deixei com a tua tia eras pequenina e não tinhas as zonas hipocâmpicas suficientemente desenvolvidas para te lembrares de mim agora, sendo assim... qual a razão para eu estar escondido de ti aqui no carro? Talvez porque ache que se me aproximasse de ti e apesar de não me conheceres, eu acredite que existe uma troca de olhares mais prolongada, sei lá, uma espécie de "atracção inexplicável" proveniente dos Deuses e que te levaria a pensar que, de facto, eu sou teu pai ou coisa do género).

   Porque se fosse agora, Margarida, fazia tudo diferente. Acredita que o pai fazia tudo diferente. Arranjava um emprego como deve ser (daqueles de escritório em que me preparava todo para ir para o emprego... um White Collar Worker como definem os Ingleses), conseguia pagar-te os estudos nessa Universidade famosa onde andas (ainda continuas a falar com as tuas amigas no patamar da universidade, serão as mesmas amigas às quais eu nunca quis conhecer por vergonha da minha condição de velho querendo parecer novo?). Que curso andarás a tirar? Sabia-o se quisesse, mas gostava de ouvi-lo da tua boca, a dizer-me:

 

   -Estudo Arquitectura pai.

 

   Ou se não fosse arquitectura, outra coisa qualquer, o que de facto eu gostava de ouvir era da tua boca, as tuas palavras a deslizarem como mel em direcção aos meus ouvidos. 

   E em vez disso, porque não sei que mais fazer, encolho-me cada vez mais no banco do carro (que coisa estúpida visto que não me conheces! Vergonha de mim mesmo? Será?) e enquanto isso os sinos badalam na Igreja adiante anunciando 6:00 da tarde e o recolher dos pássaros visto ser noite já (Inverno, frio, árvores completamente despidas de roupa, esqueléticas e raquíticas) enquanto isso eu cada vez me encolho mais no banco do meu carro, encolho-me, encolho-me, encolho-me até que um dia, finalmente, desapareça por completo, nem sinais do Sr. Gomes para ninguém (qual alguém?? Nunca tive ninguém que comprovasse a minha existência!) e eu eternizo, curiosamente, a minha ridícula presença neste Mundo que nunca foi senão indiferente para a minha querida filha.

 

publicado por Simao_psi às 18:26

caraças! o que é isto rapaz?!! temos é que abrir o nosso blogue de futebol! isso sim!
daniel r. a 8 de Novembro de 2007 às 21:57

"Entre o querer e o poder (...) entre o ser e não ser (...) entre o estar e não estar (...) entre o ver e o avistar (...) entre o encontrar e o procurar (...) entre o ter e o pensar!" É o meu pensamento deste texto, interpretando-o no meu contexto vivencial. Está extremamente rico... adorei! ;)
JPA a 17 de Novembro de 2007 às 12:26

mais sobre mim
Novembro 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


pesquisar
 
blogs SAPO