Fevereiro 10 2008

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    Os domingos sem o meu pai são sempre mais monótonos e insignificantes do que quando ele estava comigo. Os movimentos das pessoas são espontâneos e sem significado, não consigo encontrar nenhum significado no que elas fazem, nem a nada que existe á minha volta. Porque a dissolução de um pai morto é uma coisa, mas a dissolução de um pai "morto-vivo" é outra coisa diferente, de modo que agora recordo com nostalgia os domingos que passei com o meu pai e que nunca mais passei com ele, os passeios á beira-mar com ele vendo os pescadores e quando nos lembravamos de todos os momentos de pescaria que vivemos (a competição entre nós que se gerava com o número de peixes que cada um pescava: vá lá pai admite... eu ganhava sempre), de modo que agora neste domingo como todos os outros (igual aos outros não porque falta a presença quente e segura do meu pai, uma espécie de sofá da nossa alma, bastava estares presente, pai, para que eu me sentisse bem porque não há conforto maior do que a presença de um pai) agora vejo um domingo diferente sim, um domingo onde as pessoas fazem movimentos espontâneos e sem significado, parece que fazem as coisas por fazer e a monotomia dos domingos, a característica mórbida deste dia da semana traz-me a ti pai, aos momentos que vivemos juntos (eramos camaradas de vida pai, lembras-te?), ás pescarias que faziamos nos sítios mais perigosos do mundo, ás miúdas que passavam na rua e nós "babados" a olhar e entre nós um pescar de olho que valia mil palavras pai, como te foste tornando tão velho pai? porque é que as coisas não seguem o seu ritmo natural - cresces, namoras, casas, tens um filho e depois morres - nada de divórcios pai que me levas contigo também, percebes? Levas-me parte de mim contigo, de modo que eu não posso estar inteiramente onde quer que esteja porque me falta sempre um bocado de alma, um pedaço de coração como falta a um pão pousado em cima de uma mesa de jantar qualquer quando lhe damos uma mordidela só para tirar um bocado e matar a nossa fome (só que o pedaço que falta no meu coração é diferente do pedaço que falta ao pão, é demasiado grande para comparar), porque gosto muito de ti pai, porque acordo a meio da noite com vontade de chorar por não estares comigo pai, e choro mesmo, porque há sempre uma preocupação subjacente á minha alegria pai, sempre, e por mais que digas:

 

 

 

   "-Estás bem Pedro?! O pai continua a gostar muito de ti, sempre! Nada mudará entre nós"

 

 

 

    quando na realidade mudou tudo pai, tudo. É uma sensação muito estranha quando chego a casa de um lugar qualquer e não te ver no computador e a barafustares comigo porque eu cheguei tarde ou porque saí e não disse onde fui. É muito triste saber que não estás aqui para me foderes a cabeça (para quê preocupações com a linguagem quando se está a escrever de coração aberto e de caneta em riste?). É muito triste pai estar a vivenciar um domingo no qual não estás presente, aqui comigo pai, onde viamos os jogos do fim de semana juntos, onde ouviamos o gritar de um golo no estádio do Maia pai e onde a tarde caía connosco. É triste pai ver toda a alegria nas pessoas e não estar feliz porque me falta sempre algo, falta-me um bocado de alma da mesma forma que falta um bocado de pão em cima de uma mesa qualquer esquecido com todos os pratos e os talheres com pedaços de comida esquecidas também e que arrefecem nos pratos da mesma forma que arrefeces na coisa que é mais sagrada e nobre em mim, o meu coração. De modo que os movimentos espontâneos e sem significado que observo nas pessoas através da minha janela (a janela é fonte de inspiração de tudo o que me acontece na vida) estão, na verdade impregnados de veemência e alegria porque jamais sabem o que é ter um pai "morto-vivo", umas sabem outras não, as que não sabem não podem compreender (apenas umas palmadinhas nas costas e uma panóplia de frases já previamente construídas como "têm paciência", "ganha coragem") quando, diga-se de passagem, a coragem está uma gaita e aquilo que me apetecia agora era ter 15 anos e ir pescar com o meu pai com as botas que levava, o chapéu que os meus colegas gozavam na altura e eu adorava (que vaidoso que eu ficava com um chapéu daqueles) e ir pescar contigo para os sítios mais perigosos (quanto mais perigosos melhor pai... criava-se sempre um sentido de camaradagem inesquecível) e pescar um peixe e dizer para ti:

 

 

 

     "-1-0"

 

 

  

     e tu ficares indignado, quero ir contigo ver os aviões á beira do rio e ir de calções e mochila ás costas transportando a marmita com a comida e as batas fritas que compravamos pelo caminho. Quero ver-te a morar comigo pai e saber que estás aqui para me chateares (que grandes chatiçes que tivemos, lembras-te?). Como eu gosto de ti pai e como me fazes falta de modo que o que me dá ganas agora é para partir tudo á minha volta porque este domingo monótono e taciturno leva-me indefinidamente e largamente a ti e a tudo o que passei contigo. É assim que escrevo pai (não sei se para ti que escrevo ou para aliviar e dissolver a minha tristeza, ou quem sabe as duas coisas) e sabes, talvez um dia te surpreendas e vejas o sonho do teu filho concretizado, a ver os seus livros nas melhores livrarias a serem vendidos ás milhares de unidades, porque sou mesmo assim pai acredita, um sonhador nato, e apesar de estar um pouco descontente contigo acho que gosto de ti e queria mesmo que me gostasses e amasses tal como antes (embora saiba que é sempre diferente) e gostava mesmo pai, isso sim, que estes malditos, melancólicos e taciturnos domingos acabassem de uma vez por todas e que os vivesses, para sempre e indefinidamente sempre comigo, tal como nos bons velhos tempos da alegria da minha vida.

 

 

 

 

PS: estou-me marimbando para os eventuais erros ortográficos ou ideias desconexas que poderam aparecer neste texto; é que só sei escrever à velocidade da luz e do pensamento de modo que não tenho tempo para formalismos de merda, nem correcções ortográficas ou de outra natureza qualquer. A minha definição de escrita e do que é escrever é esta.

publicado por Simao_psi às 13:18

Desculpa a invasão. Adorei este texto, escrito com sentimento e de coração aberto. Obrigado por partilhares o teu pensamento com todos nós.
Parabéns!
iRrAcIoNaL a 27 de Julho de 2008 às 15:08

Lindo e muito tocante o seu texto...Sou brasileira e fiquei muito emocionada com sua emoção!
teresa severo a 9 de Agosto de 2009 às 05:26

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