Maio 11 2008

  

 

 

   Nunca mais ninguém soube de ti e, no entanto, tu tão presente, tu tão próximo de mim e de nós, porém, ninguém sabe de ti (importas-te de dizer onde te escondeste este tempo todo?) procuramos, procuramos e não sabemos de ti, daquele homenzinho da pesca com o filho aos sábados à tardinha, dos amigos dele (poucos amigos por sinal) da ausência citadina durante as tardes derivado ao facto desse homem trabalhar à noite. De tudo pai, de tudo. E sabes o que mais me irrita? É que um dia destes (como todos os outros) tu ligas para mim como se nada fosse, como se tudo estivesse bem e convidas-me para almoçar contigo, convite esse que só é feito quando as pessoas que tu realmente gostas te dão negas ou então quando estás farto da presença fria delas. É aí que eu digo não pai, com todas as letras. Não penses que sou um hipócrita como tu, que me escondo em argumentações que toda a gente desconhece, inclusivamente, tu. Por isso pai, não te dês ao trabalho de aparecer às pessoas, de me ligares, de ligares à minha avó porque tu não existes para nós, já não sabemos onde estás à bastante tempo pai, não vale a pena apareceres agora. Sei onde tu moras agora, pai, percebes? No entanto, não consigo encontrar-te, não sei o perfume que tu usas agora porque apesar de me encontrar contigo esporadicamente eu não sinto o teu cheiro, não conheço mais o cheiro do meu pai. Não consigo encontrar a tua voz, ela chega-me aos ouvidos sob a forma de sons esquisitos semelhantes àqueles que ouvimos quando mergulhamos na água do mar numa tarde de verão (as vozes das outras pessoas estão distorcidas e tentámos descodificar quem é que fala) de modo que o mesmo acontece comigo agora pai, eu quando estou contigo faço questão de meter a cabeça de baixo de água e tentar adivinhar quem fala, qual é a torneira que escorre aquela voz distorcida e mesmo assim não te encontro pai, não sei quem tu és, quem tu queres que eu seja (um aluno com bom aproveitamento como tu quisesses que constasse no divórcio com a minha mãe, é?) então desilude-te pai porque não vou ser nunca um aluno com bom aproveitamento, porque simplesmente quero ser escritor, quero refugiar-me do Mundo e não ligar a ninguém, tal como tu fizeste (que boa herança de ti pai, já viste?). E dizes tu, agora: “ai que desgosto, andamos uma vida a fazer sacrifício para agora o raio do rapaz dizer que quer ser escritor… Vê se estudas, rapaz, deixa lá isso!” e o mesmo deves dizer da política, não é pai? Sempre detestas-te às manifestações que fui, nunca compreendeste o que realmente eu via e vejo na luta de massas, cagaste para isso, insultavas-me por eu ter opiniões políticas diferentes das tuas, tal como dizias: “a política não faz ninguém, estuda mas é para a frente!”, e enquanto dizias isso pai, nem sabes o bem que me sabia faltar às aulas para ir às manifestações. Quando fui à manifestação de Lisboa, só soubeste que eu tinha faltado às aulas à noite quando cheguei a casa… já estava em casa, já tinha estado com o povo na manifestação e agora já não podias fazer nada: 1-0 para mim pai, têm paciência.

    Por vezes sinto que nunca mais vamos ser os camaradas que éramos (camaradagem mesmo ou ilusão disso), que nunca mais vamos jogar bilhar os dois aos domingos enquanto a mãe não saía do emprego, lembras-te pai? Que não vamos nunca mais jogar ping-pong e eu te possa demonstrar o que é jogar de verdade, que nunca mais passarei o Natal contigo (quando na verdade o Natal sempre foi merda para mim e agora o Natal menos merda para mim sei lá porquê…), que nunca mais vamos ver filmes durante a tarde (coisa que já não fazíamos à bastante tempo) filmes de guerra, ao nosso gosto, em que tu antecipavas, o barulho das granadas no filme, quando eu era míudo: “- pummm” e eu sempre achei piada a isso, que nunca mais vou ver-te a chegar a casa do trabalho com o livro de contas do pão e dos bolos dizendo: “-Fodasse, Pedro, o dia hoje correu mal como a merda. Não vendi um caralho!” linguagem essa não utilizada com os filhinhos e os papázinhos, não é verdade? Não se pode utilizar porque não convêm, não é salubre para o normal desenvolvimento destes.
    E tudo isto para dizer pai que não sei de ti, desencontrei-me contigo na minha vida, não sei por onde paras, no entanto, sei quais os cafés que frequentas, onde moras, o teu carro, quase tudo de ti. Mas conhecimento factual é diferente de conhecimento emocional, do encontro emocional contigo. Não admito que tenham uma pinga de piadade para comigo nem para com a minha situação. Não admito. Sei perfeitamente que “as àrvores morrem de pé” e estou habituado, como em tudo na vida, a lutar até à última bala.
publicado por Simao_psi às 16:39

:)
ste a 6 de Dezembro de 2008 às 22:20

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